Cortejo dos catadores ( Sísifos ou Centopéia)

Artista responsável: Léo França

IDÉIA

Corpo coletivo – Centopéia

Dinâmicas da ação:

* Encontro e discussão na cooperativa (Rio Vermelho ou Gamboa de Baixo)

Encontro entre artistas e catadores numa cooperativa de lixo reciclável para discutir sobre a dinâmica da economia do lixo (quanto custa o peso? quais as condições enfrentadas pelos catadores na coleta desse lixo? qual o destino do lixo da cooperativa? E outras questões que surgirem na hora)

* Deslocamento dos sacos de lixo (15 a 20 sacos) num caminhão ou Kombi caçamba até o pé da ladeira da barra.
* Cada performer carrega seu saco de lixo na cabeça ou nas costas e sobe em fila indiana estabelecendo um mesmo ritmo, criando um grande corpo coletivo.

Trajeto na borda Amarela

Andar pela faixa amarela, a faixa dos cordeiros do carnaval, a faixa de contenção do trânsito

* A subida encerra no Largo da Vitória

AÇÃO

CORTEJO DE CATADORES OU SÍSIFOS OU CENTOPÉIA

ÃO/ACONTECIMENTO NA BORDA ENTRE A RUA E A CALÇADA, CATADORES E ARTISTAS, ARTE E MANIFESTO, O MAR E O ASFALTO, POENTE DO DIA E O NASCER DA NOITE.

Agentes co-labor-ativos*:

*termo utilizado por Isabele Cordeiro

# coletivo construções compartilhadas

# Artistas participantes das poéticas performáticas de multidão

# CRUN RECICLAGEM

# LIMPURB

Condições em que foi realizada a performance:

21 sacos grandes cheios com lixo reciclável (pet e sopro)

6 pessoas envolvidas com a reciclagem (2 catadores e 4 recicladores)

1 caminhão com 3 funcionários da Limpurb (1 motorista e 2 garis)

30 artistas (produtores e artistas)

Design da performance:

Garrafas de pet e sopro – sacos carregadores – ação de carregar grandes sacos de lixo reciclável realizando o trajeto porto da Barra + ladeira da Barra + largo da vitória – recomendação: seguir pela linha branca da pista.

Movimento 1

Horário: 14:10

Local: CRUN RECICLAGEM

Encontro com os 6 participantes ligados à reciclagem

Chegada do caminhão da Limpurb

Depósito dos 21 sacos no caminhão

SIGO NO CAMINHÃO COM OS FUNCIONÁRIOS DA LIMPURB. UM HOMEM NA RUA PEDE PARA QUE O CAMINHÃO PARE E PERGUNTA PARA ONDE ESTAMOS LEVANDO AQUELE LIXO. ELE SE MOSTRA INTERESSADO EM COMPRAR. EXPLICAMOS QUE NÃO ERA PRA VENDER E SIM PARA UMA AÇÃO ARTÍSTICA. ELE LAMENTA E NOS DESPEDIMOS.

SEGUIMOS NA CABINE DO CAMINHÃO CONVERSANDO SOBRE DINHEIRO LIXO RECICLÁVELUM AMIGO QUE FOI PRESO POR QUE NÃO PAGOU A PENSÃO DO FILHO – O NOVO CHEFE DOS GARIS QUE SÓ ANDA DE TERNO. PAULO – FOTÓGRAFO DESTA AÇÃO – PASSA DE MOTO DANDO CARONA A UM DOS CATADORES MORADOR DE RUA.

CHEGAMOS NO PORTO DA BARRA.

Eu (Leo), Adilson (representante da CRUN RECICLAGEM) e Lobisomem (apelido de um dos catadores) descarregamos os sacos de lixo reciclável no calçadão da praia do porto da Barra.

Horário 15:40

Movimento 2:

Local:

Porto da Barra, Pracinha do porto da Barra

Sentamos em roda no chão de uma praça do porto da Barra. No meio da roda temos alguns sacos cheios de garrafas pet e sopro.

Diálogo sobre a performance/economia do lixo:

Para iniciar a discussão abro a conversa sugerindo como postura corporal para o diálogo e o trajeto três ações: RE CICLAR / RE USAR / RE DUZIR.

Pergunta que abriu: O que temos diante da gente? Questões que foram surgindo: o que chamamos de lixo é material reciclável que por sua vez vira dinheiro, quanto é o quilo da garrafa pet, quanto os catadores tiram em 1 dia bom, 70 quilos é a maior quantidade já tirada em um dia, o dia bom para os catadores é a segunda-feira, se o catador consegue tirar 70 quilos ele ganha 20 reais…  Outras questões surgiram e tiveram registro em vídeo por Gabriel Teixeira e fotos por Paulo Lima.

O DIÁLOGO AGREGOU MUITAS DIFERENÇAS SOCIAIS E POLÍTICAS REUNINDO CATADORES QUE MORAM NA RUA, RECICLADORES QUE TRABALHAM NA COOPERATIVA, ESTUDANTES E ARTISTAS. NESSE MOMENTO COMECEI SENTIR QUE A MINHA COORDENAÇÃO ESCORRIA UM POUCO PELAS MÃOS. ACHEI QUE NÃO SOUBE PROPOR ESTÍMULOS MAIS INTERESSANTES OU PROVOCADORES PARA MOBILIZAR AS PESSOAS A SE POSICIONAREM. Senti as pessoas apáticas ou desmotivadas.

OPTEI POR CONDUZIR O diálogo LANÇANDO perguntas. ESSA ESCOLHA ME FEZ PENSAR COMO É DIFÍCIL NOS RELACIONARMOS COM AS DIFERENÇAS DE OPNIÃO OU COM O SILÊNCIO. A CONDUÇÃO EM FORMA DE PERGUNTAS gerava autonomia de respostas com as quais eu não concordava. Porém, nessa diferença produzimos muitos MOMENTOS DE TROCA E APRENDIZADO NAQUELA RODA. APRENDO MAIS UMA VEZ O QUE TODOS SABEM SOBRE DEMOCRACIA: O ESPÍRITO DEMOCRÁTICO DEVE SER ACOMPANHADO POR QUESTIONAMENTOS CRÍTICOS PARA QUE AS OPNIÕES NÃO DESCANSEM COMO CONSELHOS, LIÇÕES OU VERDADES APAZIGUADORAS.

Movimento 3:

horário:16:10

Volta ao calçadão.

Na volta numa conversa com Duto Santana, grande parceiro artístico, ele colabora observando que a desistência ou pausa podem gerar um tempo coreográfico e que o revezamento e a troca poderiam servir como sustentação e reciclagem de energia para manter o corpo coletivo. Essa informação foi importantíssima para garantir a coesão do grupo: quem estiver de fora fica em prontidão para revezar com quem estiver cansado, caso o saco seja muito grande necessitará de duas pessoas para erguê-lo. Na verdade, durante a experiência a regra se transformou um pouco se tornando: quando 1 para todos param,

FOI CURIOSO NOTAR QUE QUANDO VOLTAMOS PARA O CALÇADÃO DA PRAIA A CONTINUIDADE DA AÇÃO NÃO ESTAVA MAIS SOBRE A MINHA COORDENAÇÃO. O CONHECIMENTO CORPORAL QUE A AÇÃO PEDIA ERA COMPETÊNCIA DOS CATADORES E RECICLADORES E NÃO DOS PERFORMERS. NESSE MOMENTO, OS CATADORES E RECICLADORES ASSUMIRAM A CONDUÇÃO PARA AJUDAR AS PESSOAS A ENCONTRAREM AS NEGOCIAÇÕES CORPORAIS NECESSÁRIAS PARA CARREGAR OS SACOS. A INFORMAÇÃO CORPORAL DELES NESSE MOMENTO FOI FUNDAMENTAL PARA O ACONTECIMENTO DA AÇÃO.

Impressões gráficas dos olhos no momento de levantar os sacos:

Mulheres, crianças, homens e adolescentes

A beleza e a leveza aparente quando os sacos foram erguidos;

Todos me pareciam saídos de uma grande Saga ou Epopéia;

Realmente eram trabalhadores míticos;

Apesar de suas bermudas, camisetas e sandálias havaianas todos ganharam uma dimensão mítica/heróica;

Eram criançasheróis transformando pesados sacos de lixo em pipa;

Carregavam o mundo em suas costas….

Pode ser um monte de lálálálálá, mas tudo isso continua inscrito em mim. Irei guardar com todo carinho.

Movimento 4:

horário 16:20

Local: porto da Barra, ladeira da Barra e largo da Vitória.

Já com o saco na cabeça e realizando o trajeto:

Concentração em organizar o corpo para equilibrar e sustentar o peso do saco. O saco atrapalha a visão forçando a gente olhar pro chão e ter a faixa branca da pista como guia.

As dificuldades de RE CILAR / RE USAR / REDUZIR o corpo do/no trajeto:

Dificuldade de estar completamente dentro envolvido e ter que coordenar;

Dificuldade de visualizar o impacto e como está sendo conduzido;

Dificuldade de comunicação para receber feedbacks de como a ação está acontecendo;

Ao carregar o saco notei que se trata de uma ação – recorrente em meu interesse artístico – em que as condições da ação reconfigura o estado corporal. A situação de estar carregando um saco grande e pesado constrói o estado corporal necessário para aquela ação. Carregando o saco não tem como sustentar a conversa alheia, nem a visão alheia, precisa de uma atenção e uma urgência em organizar todo o corpo para mover-se. Caso contrário: cansa, machuca, derruba… Concentrar no ato de carregar o saco é uma questão de sobrevivência e permanência no trajeto.

Ao final do trajeto, depositamos os sacos num triângulo demarcado pelas faixas amarelas da pista do largo da Vitória. Os sacos mal repousaram no meio da pista um grupo de policiais se aproximaram. Eles pediam que retirássemos os sacos, pois apesar de não estarem no meio da pista, estavam atrapalhando o trânsito, pois os carros diminuíam a velocidade para observar.

Relembrando agora o desfecho do largo e dos policiais, noto que nesse dia todos resolvemos diminuir um pouco a velocidade dos nossos corpos e carros para olhar, carregar e reciclar um pouco do nosso lixo, da nossa pedra, da nossa vida.

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