Pingos e pigmentos

Artista responsável: Rita Aquino

IDÉIA

A ação propõe uma intervenção plástica no contexto urbano. Trata-se do acúmulo gradativo de guarda-chuvas em uma praça no centro da cidade, produzindo a saturação de uma cor vibrante, seguida de sua dissolução. Executada por aproximadamente 40 performers, a ação prevê um dia de encontro em estúdio, para amadurecimento da proposta em relação aos sentidos e sua realização (05.05.10); um dia para concluir esta preparação, testar e avaliar os procedimentos (06.05.10); e um último dia para realização e registro da performance, em que serão também distribuídos 10 guarda-chuvas para contaminação dos transeuntes. . Os encontros ocorrerão das 14 às 17h, na Escola de Dança da FUNCEB (Rua da Oração, 1 – Terreiro de Jesus, Pelourinho). O local de realização da performance será definido em coletivo.

REALIZAÇÃO

Pingo de chuva, pingo de tinta, pingo de cor

Pingo de gente, pingo de idéia

Gatos pingados

Multidão

1º encontro – construindo a ação

Parecia muito importante trabalhar com a percepção. Sim, pois para que uma multidão em ação produzisse algo com coerência, era preciso perceber o que seria coerente para a construção da performance. Perceber o que se constrói, como se constrói, que sentidos essa construção produz no mundo. Acredito que do princípio até o fim, este trabalho sempre tratou da percepção

(Um pequeno intervalo. Isso já estava me inquietando antes mesmo de pensar nos pingos. Os pingos surgiram em meio a um período de chuvas torrenciais, chuvas que deixaram cinza a cidade e os meus pensamentos. Isso, em termos de temporalidade, foi algo mais ou menos recente. O que eu propunha, assim, era corromper esse acinzentamento com um gradativo surgimento de cor. Tingir, saturar e dissolver – me pareciam estes os movimentos.)

Mas o fato é que pra mim não tinha como começar de outro jeito, pois era o jeito mesmo que me ocorreu, pois é algo em que acredito. E já pra fazer menção, ocorreu e encorpou em conversas com meu interlocutor artístico, Duto Santana. Bom, assim começamos.

Começamos a preparação na 4ª feira dia 05.05. Começamos vendo, ouvindo, sentindo… Corpo, corpo do outro, espaço. Massa e diferença. Andar e parar. E compor. E perceber. E e e e e. Era isso: simples exercício de percepção e composição.

Aos pouquinhos, fomos nos conhecendo. E avolumando. Porque no começo éramos poucos pingos, mas lá pelas 14:47 já formávamos uma multidão. Uma petit multidão, mas bastante representativa para o tamanho da sala na Escola de Dança da UFBA, que de repente fez-se extremamente desconfortável. Pra minha alegria. E pra o funcionamento da proposta

Foram aparecendo coisas. Coisas de natureza diferente, com corporalidades, estéticas e visões de mundo diferentes. Achei que precisávamos construir o sentido juntos. E assim, a cada rodada, íamos mapeando o que parecia interessante, afinando um entendimento.

Os guarda-chuvas entraram em cena. Aliás, entraram MESMO. ROUBARAM a cena, ATRAVESSARAM a cena. E um pouco da percepção-micro que estávamos construindo. Não os guarda-chuvas oficiais, estes ainda não haviam sido comprados. Mas os guarda-chuvas civis, das pessoas que os trouxeram por mero utilitarismo, de uma semana que começou com chuva (e ilusão)…

Chegamos a um ponto interessante. Uma corporalidade quase cotidiana, com foco na percepção, estado de presença e manipulação do objeto (guarda-chuva). A manipulação era da ordem das sutilezas (lista abaixo) e a ocupação do espaço como permanência e deslocamento, mas sempre em função de uma composição com todo. Quase nada. Quase imperceptível. Mas para provocar a percepção. Por isso, o tempo predominou-se em dilatação.

Ações:

* Abrir
* Fechar
* Girar
* Apoiar
* Sacudir (com moderação)
* Agrupar
* Passear
* “Consertar”
* Oferecer
* Combinar níveis de guarda-chuva
* Afundar o guarda-chuva na cabeça
* Abraçar
* Conversar / Rir

Foram muitas rodadas… E talvez tivessem sido mais tantas, se não fosse a hora, a gripe, a rouquidão, a a a a…

O dia seguinte foi na ensolarada Avenida Sete. Mais uma vez, roteiro de camelôs e lojas china. Desta vez, com mais decisão. Eu e Luiz. E o calor.

Foram muitos testes e tentativas de barganhas. Finalmente compramos 41 guarda-chuvas idênticos (ou quase isso). Rosas-Roxos-Magentas. Foi engraçado, despertava tanta atenção que diversas pessoas se interessaram pelo produto. Por pouco não desistimos da performance para ganhar um dinheiro ali mesmo. E entre devaneios made in china acabamos chegando ao Vila.

2º encontro – performando a ação

Estava ansiosa para o segundo encontro. Muitas expectativas!

Dia 07.05, marcamos na Escola de Dança da FUNCEB. No Céu. (…)

37 pessoas esperadas + pessoas que tinham avisado que só viriam na 6ª + equipe do projeto (Duto, Líria, Leo, Pedro, Luiz, Marcelo, Gabriel, Paulo) + uns que apareceram na hora = multidão de {PINGOS E PIGMENTOS}

Retomamos as consignas, estruturamos o roteiro, realizamos novos acordos. Em seguida, 41 guarda-chuvas rosas-roxos-magentas! E assim atualizamos a proposta da performance e o sentido da cena. E preparamos nossa saída à rua.

Fomos. Dispersos. E inéditos!

O mapa: Av. Chile / Barroquinha / Ladeira da Montanha / Av. Sete/ Carlos Gomes

A missão: povoar a bela paisagem da Praça Castro Alves com nossos pingos de cor.

Duramos ali uns 40min experimentando intervir no local. O efeito foi muito diferente do esperado. Na imensidão do espaço (praças, ruas adjacentes, fluxo, Baía de Todos os Santos) ficamos pontilhados. A imagem era bonita, bastante leve e sutil. Vira-se e descobrir guarda-chuvas rosas em plena luz do dia (e que luz, né Gabriel!). Onde está Wally?

Na amplidão, deu-se o tempo da permanência, da contemplação e do convívio. Entre o cotidiano e uma suave suspensão, a assinalação de que vale a pena prestar um pouco mais de atenção na vida.

Como a materialidade da intervenção foi deslocada pelo contexto, o efeito produzido também. E o modo de registro desse material também precisou se atualizar em tempo real. Expectativas, investimentos, direcionamentos – criações em multi-cérebro. Multi-perspectivas = Multi-posições…

Nos reunimos. Em coro, todos juntos, descemos a Ladeira da Montanha. Procissão, Manifestação, Cortejo, Passeata, Ocupação, Marcha, Ato político, Intervenção, Passeio. Nosso grupo de guarda-chuvas rosas deslizou por esse trajeto abandonado, marginal e violento.

Guardar o que?

Guardar do que? Guardar quem?

Guardar de quem?

Armados com nossa anti-arma surreal desenhamos sombras, descobrimos frestas e apreciamos a vista. Conversamos com pessoas, desviamos dos carros e por fim chegamos ao pé da ladeira.

Re-dispersão. Vias de acesso ao nosso novo objetivo.

Na Praça da Inglaterra o plano era similar à Castro Alves. Mas a qualidade pracística era totalmente diferente. Jardins, bancos, pessoas, esquinas, barraquinhas, lixo, estátuas (ah, isso era um ponto em comum!). Novas composições surgiram. Novos jeitos de performar.

“Mas afinal, vocês estão fazendo o que? A que horas o show vai começar?”

Fotos, pipoca, faixa de pedestre, cerveja, conversa, risada. Subimos o elevador, a contragosto dos funcionários que insistiam para que fechássemos os guarda-chuvas. Um grande compartilhamento ao final, roseando a escadaria da Prefeitura.

Ali e aqui: impressões, questionamentos, satisfação e o desejo de prosseguir.

Obrigada a todos! E até logo!


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7 Comentários Add your own

  • 1. Cacá Nadai  |  maio 12, 2010 às 6:49 pm

    Uma ação de pingos que se transformou em correnteza, descendo e subindo ladeiras, de dia e de noite, guarda-chuvas abertos, fechados, virados, guardando mais sol do que tudo, desenhavam em único tom: ROSA FUXIA!
    Um rosa que não é rosa, que não está na cor urbana, que não pertence a marcas, grifes, ao asfalto, às praças, aos símbolos de empresas, enfim tinha de ser identificado como algo… aí as perguntas dos transeuntes mais ousados:
    -é uma campanha?
    – é uma nova coleção?
    -é uma promoção?

    Dos carros e ônibus a performance se alargava, não em cores mas em movimentos, pescoços virados, olhos arregalados!
    Um pingo de ação que reverberou em uma multidão!

    Responder
    • 2. Rita Aquino  |  maio 14, 2010 às 12:08 am

      Cacá, adorei isso!

      Pensar-fuxia
      Mover-fuxia
      Desenhar-fuxia
      Identificar-fuxia
      Reverberar-fuxia

      GUARDA-FUXIA

      Responder
  • 3. Valdíria Souza  |  maio 14, 2010 às 3:41 am

    A Praça já não é mais a mesma!

    Estava tentando escrever já alguns dias, mas como falar de sensações?
    Como descrever pensamentos, dúvidas e emoções?
    Como explicar as cores, os guarda-chuvas?
    Pessoas me perguntavam? O que é isso?
    Eu devolvia a pergunta: o que é isso?
    Será que eu sei o que é?
    Será que eu já sei o que foi?
    Será que eu posso responder?
    Será que se não responder eu já não estou respondendo? (Não é Duto?)
    Não, não sei, mas não me importo, ninguém sabe tudo.
    Do incômodo na sala pela criação do improviso, o medo do desconhecido me invadiu. O que é performance? O que eu vou fazer? Onde isso vai dar?
    Na Praça Castro Alves,
    Na Ladeira da Montanha,
    Na Praça da Inglaterra.
    E a VONTADE tomou o lugar do medo
    e me vi levada a pintar a Cidade de rosa,
    a enfeitar as praças e a Ladeira da Montanha com guarda-chuvas que brotavam de nossas mãos falando:
    de beleza,
    de pingos,
    de pintura e
    PIGsentimentos.

    Sempre que por lá passar vou lembrar…

    A Praça e Eu já não somos mais as mesmas.

    Responder
  • 4. Lorena Rios  |  maio 20, 2010 às 7:43 pm

    Foi muito bom poder participar da ação, uma experiência que marcou. Na hora estava tendo uma visão diferente da que estou tendo agora, após ver as fotos. A sensão de estar ali, tentando imaginar o que as pessoas poderiam pensar, ouvindo os comentários, pensando o que iria fazer. Ver um pingo tornar-se um rio. Lindo!

    Responder
  • 5. Dai Leal  |  junho 6, 2010 às 12:25 am

    Sobre o exercício de “estar”… Por um momento estou e sou um ponto interligado como em uma rede. Observo outros pontos ao meu redor que praticam o estar conectado formando uma grande cadeia de pigmentação. Abrir ou não abrir o guarda-chuva, o abrir cria anciedade o que interfere no estar… estar atento, estar presente, estar dentro. Performar trabalha com uma percepção mais fina ou sutil. O que é simples e pequeno, andar com um guarda-chuva, abrir o guarda-chuva…, torna-se dificil e perigoso, pois esquecer-se do estado cênico diante as informações da rua é o mais provavel. Como estar, e se permanecer estando até o final? Como seguir os acordos propostos, mesmo dependendo de informações da multidão? Eis o que pesquiso a respeito do estado performático de Pingos e Piguimentos. Estar no proposito, ter um proposito. Porque assim não me perco no primeiro que aparecer. O que tenho entendido, ainda, é que cada ação é um estado diferenciado, pois requer (talvez)um foco diferente… Enfim… Pecepções e questionamentos.

    Responder
  • 6. Leo França  |  junho 7, 2010 às 9:40 am

    Sobre quando escorre e respinga os {pingos e pigmentos}

    Estruturas/ momentos que me chamaram a atenção:

    Momento 1 (praça do campo grande)

    Pontilhar e Respingar como ocupação do espaço. Relação de composição gráfica.
    comentários que chegaram a mim vindos de quem viu: interesse em descobrir onde estavam as pessoas com guarda chuva rosa; brincar de compor com outras cores e elementos do ambiente(ex: o guarda chuva e a bandeira do brasil); a ação instigava uma espécie de jogo de ligar pontos; reação de surpresa e humor quando acontecia o inusitado de pessoas (transeuntes) passarem ou ficarem paradas usando alguma peça de roupa da cor rosa; quando pensa que já viu todas as pessoas envolvidas ainda aparece mais uma ou quando pensa que acabou ainda tá rolando as composições;

    Momento 2 (Do Hotel da Bahia até o MAM)

    Os pingos escorrem. Ação de escorrer/mover em conjunto. Impacto. Estrutura reconhecível pelos transeuntes: Procissão/Protesto/Passeata.
    O que mais escutei: isso aí é de quê? é pra quê? Além das perguntas muito sorriso, fotos e buzinas vindo das pessoas que passavem de carro.

    queria compartilhar essas coisas,
    escrevo mais depois

    adorei ser pingo, pigmentar e escorrer junto

    abraço

    Leo França

    Responder
  • 7. Núbia Ramalho  |  junho 8, 2010 às 11:02 am

    O estado performático é sempre sinônimo de completude para mim, e no sábado pude constatar o verdadeiro sentido do “Ocupar e resistir” que o ME gosta tanto de bradar. De todos os momentos da ação, o mais intenso, sem dúvidas foi o da Contorno. Tinhamos uma explendorosa vista para a Baía, em contraponto com as fezes e os pipes dos usuários de crack,e no meio disso guardas-chuva magenta que por instantes quase provocaram acidentes de trânsito, rs
    Enfim, fiquei muito contente com esse trabalho, muito bom!
    Parabéns Rita!

    Responder

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