Ônibus

Artista Responsável: Líria Morays(RADAR 1)

Ação idealizada pelo grupo de pesquisa Radar 1, de Líria Morais.

Evolução da ação – quinze performers se distribuem em 3 ônibus (cinco em cada ônibus) que percorram um mesmo trajeto na cidade de Salvador no mesmo instante. Em cada ônibus, ocorre uma exploração do espaço físico do ônibus, na qual os artistas criem movimentos improvisados sem perder a conexão uns com os outros, compondo uma cena dançada durante o percurso escolhido de alguns ônibus coletivos (três no máximo), dançando em conectividade entre e para os passageiros.

Trajeto escolhido – Pça da Sé – Cpº Grande / ou estação outra que tivermos numa idéia de encontro…

Dois dias de oficina.

PREPARAÇÃO

O primeiro dia de encontro com as pessoas do ônibus aconteceu na Escola de Dança da UFBA dia 17 de maio a tarde. Nesse dia, eu sabia que teria de escolher apenas dezessete pessoas… pois não tinha como coordenar mais do que isso, nem o projeto podia arcar financeiramente com mais pessoas. Achei que por esse motivo, não haveria muita procura… Entramos na sala eu e Bárbara Santos (Radar 1) que estava assumindo a oficina e realização dessa ação junto comigo e, a sala estava com apenas duas pessoas… aos poucos, foi chegando cada vez mais gente até completar 33 performers interessados em participar da ação.

Primeiro, uma roda de conversa, na qual eu e Bárbara íamos falando sobre as coisas e eu já estava bem nervosa e preocupada de como selecionar… Esclarecemos que essa ação nasceu num ambiente de pesquisa que em determinado dia, o grupo Radar 1 se propunha a experimentar como o espaço em movimento poderia influenciar na improvisação compositiva – o que se tratava de algo novo também para o grupo que se deparou com a novidade de estar intervindo num espaço urbano e, o contato com as pessoas da rua como um público tão próximo e o espaço do ônibus coletivo como um lugar tão incomum para a dança. Falamos sobre o fato de inverter a funcionalidade de um determinado espaço, como por exemplo, subir numa cadeira de ônibus que é feita pra sentar, ou, deitar no chão de um banco que só tem organizações em fila, etc. Falamos também sobre a multidão que assiste e interage com algo que pode ser surreal dentro de uma possibilidade performática. Dessa forma, era importante que as pessoas tivessem condições de se mover com um cuidado extremo com o espaço do outro, sem perder a conexão com os parceiros de performance. Conversamos sobre a condição de participação (avisando que teria uma seleção no final da aula), pontuando que era necessário entender que o espaço entre os performers e transeuntes do ônibus estariam entrelaçados numa fronteira tênue entre invadir ou ocupar o espaço do outro – o que tornava a condição de participação bem delicada. Essa ação consistia num entendimento de improvisação no qual os performers estivessem extremamente conectados a ponto de compor pequenos quadros a partir da criação de movimentos em conjunto.

Bom, começamos a oficina que se constituiu numa aula de dança improvisação baseada nos experimentos do Radar 1. Trabalhamos com aquecimento de articulações, possibilidades de ampliar e reduzir volumes de movimentos corporais, preenchimento do espaço da sala, visão periférica. Dois a dois, respiração conjunta e manipulação de movimento, em grupo com as ignições de (imitação, contraponto e novidade) – ignições praticadas no  Radar 1. Exercícios de grandes grupos de olhos fechados e grupos se movendo no espaço. Ocupamos os espaços fora da sala de ensaio pensando em reverter as funções desses espaços. Essa última parte da oficina, os grupos se dividiram, de maneira que cada um escolheu um determinado espaço externo a sala, dentro da escola. Para nossa surpresa, minha e de Bárbara, teve um grupo que se instalou na secretaria  da escola, num ambiente que a gente não poderia imaginar… rsrsrsrsrs fiquei pensando depois que esse exercício instiga uma ousadia e uma potência à subversão e provocação da funcionalidade do espaço… e que isso era mesmo necessário para quem ocupasse um ônibus coletivo. Na volta a sala, conversamos sobre como foi a sensação de estar nos espaços externos e eles estavam todos agitados, querendo mais, falando sobre os sentidos que são criados quando eles ocupam novos espaços.

Chegou então a dita cuja hora de selecionar… perguntamos se alguém já não gostaria de participar ou apenas acompanhar e ninguém se manifestou… enchi o saco da produção pra ver se dava pra colocar mais gente, mas Luís estava bem firme – não pode!!!! Rsrsrsrsrsrs escolhemos dezessete pessoas pensando no desempenho dessas pessoas em mover o corpo em atenção com o outro, com uma visão periférica e escuta ampliada na criação de movimentos… nos corpos onde essa possibilidade estava mais clara – uma atenção ampliada… pois disponibilidade e vontade era geral em todos… todo mundo poderia participar, mas alguns talvez precisassem de mais um dia de oficina… enfimmmmmmm não gostei de selecionar, saí frustrada… mas fui entendendo que essa ação dependia de toda uma equipe por trás… não era possível coordenar tantas pessoas e não tinha acompanhamento para tantos ônibus assim… então me conformei!!!!!

Combinamos que iríamos todos de vermelho, para o passeio público – local da próxima oficina – e de lá pegaríamos o ônibus com destino à Praça da Sé.

AÇÃO


Segundo dia… um encontro vermelho no passeio público, numa quarta-feira ensolarada…!! Compareceram Luiz, Marcelo, Pedro, Gabriel e Paulo. Procuramos uma sombra pra reunir e fomos para uma arena de barro onde ficam três bases de exercícios físicos – parecem brinquedos também… esqueci o nome…  Nesse espaço, relembramos a respiração conjunta dois a dois até formarmos grupos de seis…essa imagem de pessoas vestidas de vermelho no chão de barro foi plasticamente muito bonita…!!! Depois dividimos em três grupos de pessoas, nos quais cada um ocupava uma base de brinquedo diferente, improvisando com as pessoas do grupo, tentando imitar, contrapor ou propor uma novidade em movimento dentro dessa ocupação. Por coincidência, uma dessas bases parecia uma estrutura do ônibus… então pedimos para que um grupo permanecesse em movimento e o resto dos performers, incluindo Pedro, Gabriel e Paulo ficassem parados no mesmo local…  foi muito interessante essa imagem de várias pessoas  dançando enquanto outras nada faziam…

Nos dividimos em três grupos, fiquei com um grupo, Bárbara ficou com outro grupo e Pedro ficou com outro grupo… nos posicionamos em pontos diferentes do Campo Grande (um ao lado  do Teatro Castro Alves – para pegar Praça da Sé/Vilas do Atlântico; outro na Frente do Teatro Castro Alves para pegar Praça da Sé/Graça; e outro em frente a Praça do Campo Grande para pegar Praça da Sé/Campo Grande).

Acompanhei o primeiro grupo ao lado do TCA. Entramos, ônibus vazio, estávamos ansiosas… os movimentos apareciam logo… e o trajeto até a Praça da Sé foi muito curto. Chegamos todos (os três grupos) na Praça da Sé, nos reunimos e ficamos tentando combinar um percurso maior, com maiores possibilidades de variação… Avaliamos sobre o excesso de movimento assim que sobe no ônibus assustando as pessoas, que o balanço do ônibus já pode ser um ponto de partida para o movimento, que vale a pena ir aos poucos fazendo coisas no ônibus, etc.

Resolvemos pegar um ônibus com destino a Barra, descer e de lá pegar outro ônibus para o Campo Grande, marcando o próximo encontro com todos no Passeio Público. Então, cada grupo pegou um ônibus diferente… o meu grupo foi até a Barra descemos fomos pra a Orla e pegamos o mesmo Praça da Sé que outro grupo já tinha pego em outro percurso – que coincidência, né?  Bom, até a Barra o ônibus não estava muito cheio, mas deu para perceber varias coisas diferentes num trajeto maior, o grupo estava mais entrosado, comecei a observar  as pessoas da rua que olhavam para o ônibus curiosas… cheguei no fundo do ônibus (um fundo de vidro) e Gabriel começou a filmar essa paisagem que ficava pra trás e comecei a dar tchau pra algumas pessoas e a dançar muito explorando esse espaço do fundo… uma das meninas Sonja ficou improvisando também comigo nesse lugar… as meninas estavam utilizando a imitação, contraponto… e tentando perceber o espaço ao máximo, sem saturar… descemos e pegamos um Praça da Sé super cheio de gente… experimentamos um limite de espaço que até então não tínhamos tido contato… as pessoas do ônibus falavam entre si e riam ao mesmo tempo… era difícil movimentar muito, mas ficar em pé na cadeira ou pendurar no ferro era impactante!!

Fomos para o fundo do ônibus e começamos a dançar em meio a várias pessoas apertadas… um homem começou a falar alto tentando entender ou obter respostas para o que estava acontecendo… e ele dizia “que maravilha… eu só queria saber porque vocês estão dançando sem música… é falta de dinheiro é??” E em determinado momento olhei pra ele e fiquei na mesma posição que ele estava criando um diálogo… e logo depois voltamos a dançar e, ele continuou falando e as pessoas continuaram a rir… os sentidos vieram a tona… a sensação de estar era muito prazerosa…

Chegamos enfim ao Passeio Público e compartilhamos nossas experiências… difícil relatar tudo, pois houveram percursos diferentes do qual eu estava… Muitas coisas ficarão na memória de quem performou ou foi provocado… acho que tem uma sensação particular de quem performa que tem a ver com um desejo particular de sair experimentando esses espaços proibidos – pelo menos parece que percebo isso nos olhos das pessoas que participaram… e mais ainda, o sentido é maior quando tem gente no ônibus… o encontro com as pessoas é que fortalecem um sentido, porque elas imaginam, propõem, falam coisas fantásticas durante a ação… estar nesse lugar marginal de provocação me parece delicioso e especial… estar nesse lugar acompanhada com tantas pessoas de vermelho é mais delicioso ainda… hahahahahahahaha performers e acompanhadores, por favor complementem esse relato… tenho certeza que ele só se completa com os falares de vocês… valeuuuu!!!!

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3 Comentários Add your own

  • 1. Dhanilo Nolasco  |  maio 20, 2010 às 10:01 am

    A ação do ônibus foi uma experiência extraordinária pra mim…. pude perceber que desenvolvi o controle de concentração maior, e que não existe interveção boa ou ruim (devido ao ambiente externo ou interno ou até mesmo as pessoas que interferem na ação) mas como eu vou fazer para que o meu foco na performance seja bom ou ruim…
    Ainda assim notei que través nas diversas reações das pessoas que se contravam ali foi uma performance criada pelo desejo de se movimentar dentro de um ônibus das fredas que nos impulsinavam a uma movimentação fluida,as pessoas que estavam nos pontos fora do ônibus mas que para nós elas também estavam fazendo parte desse cenário. principalmente em poder explorar o ambiente de forma tão prazeirosa que dava pra sentir em alguns olhares que muitas pessoas estavam realizadas em poder se ver através de nós .
    Essa ação me deixou muito feliz cheguei em casa ainda meio que inerte,pois é lindo você se movimentar com o seu grupo em uma sincronia maravilhosa,e enseguida você ta enteragindo em um todo. É como se o palco fosse o ônibus, a música o rugido do motor e dos freios, a plateia fosse nós,e os artistas o público que entrava e descia do ônibus como as entradas e saidas de um palco..

    Responder
  • 2. Lorena Rios  |  maio 20, 2010 às 7:34 pm

    A realização dessa ação foi fantástica, estava acompanhando o grupo e por não estar participando diretamente da ação, observei com mais clareza as reação das pessoas que estavam em volta ou passando pelas ruas, foi maravilhoso poder observar e ouvir os comentários. Ver também os artistas performando ali naquele espaço, realmente incrível. Adorei!!

    Responder
  • 3. Soiane Lewáketù  |  maio 21, 2010 às 4:49 pm

    Como disse antes: estou ficando viciada em provocar as pessoas!! Mas principalmente em provocar reflexões… Sinto que, depois das cinco intervenções que participei, posso fazer qualquer coisa na rua, para as pessoas, posso estabelecer uma maneira de dizer algo, que precisa ser dito, de maneira poética-artística-política-intervencionista-cidadã…

    Estas ações, idealizadas por vocês, parece que são minhas também, sinto uma identificação muito grande com as propostas e já estou sentindo um leve penar pois está chegando ao fim…

    Bom, falando do Ônibus… uma experiencia impar!!!

    Percurso 1: (Cpo Grande-Pça da Sé) Muitos idosos… eles olhavam para nós tentando entender, mas não tinham coragem de se aproximar, de perguntar… até que um senhor mais “antenado” se pronunciou:
    – Voces são artistas de teatro?
    – Isto é um laboratório?
    – Pena que não trouxe minha câmera…

    Este Senhor se levantou e passou a dançar conosco, ficamos radiantes, as pessoas do ônibus não podiam acreditar que nós estávamos dançando ali e menos ainda que um senhor respeitável se juntou à nós.
    Bom, ele teve que partir no Relógio de São Pedro, mas antes advertiu ao motorista que “fosse devagar pois ele estava levando artistas”, ainda nos disse uma última coisa:
    – “não gastem muito, quero ver voces na globo!”

    Seguimos e os passageiros ainda se espantavam com nossa performance. Confesso que em alguns momentos verbalizava coisas, cumprimentava as pessoas, falei com o motorista, respondi perguntas… não estava na proposta, mas também não estava proibido… E rapidamente chegamos na Pça da Sé, quando a fluência estava ficando melhor…

    Depois eu volto pra contar como foram os percusos 2 e 3…

    Léo, senti sua falta…

    até.

    Responder

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